Esse ano tive a oportunidade de realizar uma viagem com a qual sempre sonhei. Sempre escutei falar muito sobre a cultura de nosso país vizinho Peru, e os povos antigos que viveram por lá. Escutava falar que civilizações de outros planetas, mais avançadas, passaram por lá e deixaram vários rastros, tanto na arquitetura quanto na agricultura, e que existia até uma cidade perdida no meio da floresta amazônica cuja beleza era espantosa e com enigmas ainda não desvendados. Tudo isso me deixava intrigado e com uma vontade imensa de passar uma temporada por lá. Naturalmente me pegava imaginando Harrison Ford em Indiana Jones, visitando uma cidade abandonada e procurando um tesouro que havia sido escondido a milhares de anos atrás.

Bom, o tempo passou, e alguns anos depois de me envolver na cadeia do café especial, me peguei lendo um artigo no “Daily Coffee News”, importante blog de café sobre o plantio de café orgânico, que vem sendo incentivado por programas do governo de lá desde 2013, e que vem dando resultado ano após ano com o aumento na produtividade e das exportações, em grande parte para Estados Unidos e Alemanha. Algumas particularidades chamaram muito a minha atenção, como as variedades mais populares por lá, que são a Typica e Caturra, variedades difíceis de serem encontradas por aqui, e também a altitude das propriedades, em média acima de 2500m, e que em maioria são de pequenos produtores, que geralmente cultivam outras coisas, como banana, maracujá e abacate nas fazendas.

Descobri então que a viagem que eu sonhara era muito mais do que imaginava, quase como se fosse um destino criado especialmente para mim, e a única coisa que estava faltando era justamente eu mesmo. Coincidência ou não, minha namorada recebe uma notificação no celular de um blog sobre promoção de passagens, e era exatamente a data programada para nossas férias. Pronto. Estava decidido. No impulso compramos a passagem. Agora só faltava todo o resto. E uma coisa estava muito fixa na minha cabeça, fazer a rota do café orgânico do Peru. Encontramos uma empresa chamada Responsible Tours que fazia essa rota, e logo fechamos com eles.

Após várias aventuras até chegar na fazenda, e realmente foram várias, chegamos a fazenda de Alejandro, em Huacayupana, com altitude de aproximadamente 2700m, e logo fomos explorar a propriedade. Para cultivar o café sem agrotóxicos, toda a produção deve ser sombreada, e aí já estava a primeira diferença do habitual aqui no Brasil, onde apenas agora estão surgindo algumas lavouras sombreadas, ainda sem muito estudo e conhecimento sobre os impactos disso na bebida. Iniciamos então a colheita do café junto com a esposa e filha de Alejandro, utilizando um pano amarrado nas costas onde é colocado tudo que se cata. A produção de 100% do café peruano é seletiva e ocorre durante todo o ano, devido em grande parte a altitude, similar ao que ocorre com o café colombiano, que também colhe de maneira seletiva durante todo o ano. No Brasil a colheita do café ocorre em maioria entre os meses de Maio a Setembro, tendo nos outros meses praticamente zero de colheita, com exceção de lavouras tardias em lugares como Serra da Mantiqueira, Pico da Bandeira, etc.

É notável o carinho que os produtores possuem com seus pés de cafés, e o fato de terem pessoas de outros países interessados é de imensa alegria. Estávamos juntos de uma família de Holandeses, e dormimos na própria propriedade. A receptividade foi algo marcante, e após vários cafés tomados e muita conversa, pude perceber que compartilhamos muito com nossos hermanos peruanos, tanto na parte boa que é o amor pelo grão e pela bebida de qualidade, como também na deficiência de logística e os inúmeros atravessadores que lucram muito mais do que os produtores, e acabam encarecendo toda a cadeia do café especial. Mas foi muito bacana ver que o movimento do café especial é de fato um fluxo global de mercado, e todos estão se movimentando em prol de um consumo mais responsável, com mais qualidade e mais rastreabilidade até o produtor, e quem ganha no final é sempre o consumidor. A viagem que eu sempre sonhei estava se concretizando, melhor do que eu estava imaginando, e meu destino após a fazenda de Alejandro era justamente Machu Picchu, a cidade perdida que dos Incas. E lá fomos nós para mais uma aventura, dessa vez com um excelente café que me foi presenteado pelos produtores, com muita cafeína no corpo, e muito feliz por tudo que havia presenciado. Se quiser saber mais sobre essa viagem, é só visitar nossa cafeteria aqui em BH e me procurar. Vai ser um prazer enorme compartilhar mais sobre essa viagem que me marcou tanto!